Para os meus amigos
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, hás-de ler esta carta. Regressarás, então, à festa do teu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foste recebida no calor do afecto daqueles que te amam e, em ti, regressaram eles também ao seu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foram recebidos no calor do afecto daqueles que os amavam. Recordarás, então, a lareira, as filhós, os doces, os aromas, os sabores, os manjares, o presépio, a festa, o encontro. E abrirás os olhos ao sorriso que te há-de inundar a alma na memória que da festa e do encontro se há-de fazer. E sorrirás também quando o silêncio te encaminhar para o mais profundo e íntimo encontro de que és capaz: tu própria. Tu e as memórias que te habitam. Tu e os sonhos que te fazem. Descobrirás o arco-íris e com ele iluminarás as pontes que hás-de construir sobre os rios que hás-de atravessar. Nele viajarás até às estrelas e nelas hás-de morar com o sonho que te habitar. Descobrirás, então, que a estrela és tu e apenas em ti, no mais fundo, puro e íntimo silêncio de ti encontrarás tudo o resto: tudo o que pensaste e hás-de pensar, tudo o que fizeste e hás-de fazer, tudo o que disseste e hás-de dizer, tudo o que foste e hás-de ser. Viajarás, então, pura e leve, nas asas do tempo, tecidas de luz. E gostarás! Gostarás da infinita vertigem do voo íntimo e claro que te há-de revelar. E desejarás nunca quebrar o encanto que te ilumina o olhar, nunca deixar de voar em ti para além de ti. Descobrirás que a viagem se faz no silêncio íntimo do encontro com o sonho que nos habita, que toda a viagem se faz no regresso aos rostos que nos habitam o silêncio. Descobrirás o sol e a lua, a luz e a sombra. A tua sombra. Com ela viajarás sempre. Hás-de amá-la como amarás o rosto inquieto do amor que te há-de invadir. Com ela habitarás o silêncio e a memória, com ele vestirás os dias de arco-íris. E gostarás. E sorrirás aos rostos que te habitam o silêncio e neles te encontrarás. Neles descobrirás o outro e os valores que fazem da diferença a razão de ser homem e mulher: a liberdade, a solidariedade, a tolerância, o respeito. E serás feliz!
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, há-de haver a festa do primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, o teu sonho será recebido no calor do afecto dos que o amam. E nós, que te amamos e contigo regressámos ao primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, fomos recebidos no calor do afecto dos que nos amavam, sorriremos encantados. Felizes. Como tu.
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